Montag, 16. Juli 2012

Ary, papagaio horizontal

A Mão tinha vindo para retirar o pano da noite. Abriram-se os olhos de Ary e com eles a porta da gaiola. Isso foi tudo. A Mão nunca mais voltou para lhe dar de comer. Passaram-se algumas horas, Ary virou a cabeça e virou-a e virou-a. Trinar não sabia, como não sabia que a Mão já não teria podido ouvir o seu cantarolar.
Dois dias mais tarde o papagaio tinha morrido de sede.
Mas foi este papagaio um outro papagaio, noutra casa, noutro país, noutra história. Havia, porém, certas paralelas: Também para Ary se tinha gasto a água. Mas Ary não ficou a olhar para o recipiente no fundo da gaiola, como o outro. Ele tinha uma mente mais horizontal.

A vida duma ave de gaiola é, na maioria das vezes, um grande descer e subir. Por quê? Isto depende da localização do comedouro. Se se encontrar no fundo desce-se por razões óbvias – se se encontrar na altura do poleiro, desce-se para buscar o que tinha caído. Animal come quanto puder.
Ora subir. Subir é (a) para buscar mais do mais generoso comedouro ou (b) para ver para onde exactamente tinha caído este grão que já tivera na boca. Este grão que procurei tanto.
E não falta o "(c)" para o caso daqueles pássaros que realmente não teriam de subir porque têm tudo no fundo da gaiola? O "(c)" é difícil, aqui esgotam-se as metáforas e mete água a alegoria. Digamos que são os nervos que os mandam voltear aos pássaros. Claro que são nervosos… pássaros… já uma vez tiveste um na mão e sentiste bater o seu coração? Não ficavas nervoso com um ritmo assim?
Subir e descer. É o maior movimento possível no mundo dos papagaios, e por isso merece ser medida e padrão. E é por isso que a porta, mesmo aberta, nem sempre aparece no horizonte, pelo menos para quem só está a pensar na terra e no poleiro, tão convenientemente montado no alcance da Mão.

Mas Ary era daqueles pássaros que gostam de dançar: dois passos pra frente, um passo pra trás e algúns sidesteps, pra variar. E aqui está, a nada, esta falta de grades.

Um papagaio volteia por um quarto semiescuro, de vez em quando chocando com o candeeiro e o corpo que está suspenso em baixo dele, com mão e tudo. Voa (à toa, o poeta acrescentava), mas já está tudo diferente. O mundo virou mais horizontal do que vertical e Ary apercebe-se disto. Houve porta na gaiola, vai haver porta ou buraco também aqui. E há: A janela tinha sido aberta como a gaiola, se foi para permitir ao Ary sair desta tristeza, quem sabe. A carta não diz nada acerca de Ary. Este papelzinho que resta na mesa da sala será encontrado daqui a pouco – por acaso e surpreendentemente: O velho frigorífico na cozinha é puro lixo, abrí-lo arqueologia. A Mão tinha se queixado já há algumas semanas. Amanhã virá a senhoria para trocá-lo. O corpo nem terá começado a cheirar mal, quer dizer, muito mal, um bocadinho já cheirava por costume, a priori. Este corpo. O novo frigorífico já não poderá enriquecer o dia-a-dia dele – e, eventualmente, mudar e, portanto, salvar vidas. Vidas em plural? Aqui está.

Primeiro, lá fora não é ambiente para um papagaio. Lisboa é uma grande frigideira onde o sol está a torrar, torrar o quê?, seres vivos bem mais fortes do que o Ary. Mas nem por isso.

Assim é: Ary não voa direitinho pela porta aberta e também não desaparece no ar quente e difuso do verão, rumo a uma vida melhor (de primeira mão, acrescentava o exagerador). Não, ele tinha pousado no chão, e agora salta, uops, uops, uops, e é no segundo uops que atravessa a fronteira entre sala e varanda. O papagaio estende as suas asas, tecnicolor. O mundo que enfrenta é vasto e profundo, mas de nervosismo só o habitual (que já é bastante). Enfim, atirar-se não é um grande problema para os pássaros, quem nunca caiu não tem medo de cair. Ary já voa, e nem foi descrito aqui o grande momento de deixar tudo atrás, um latido de coração antes. Coração humano. E três de coração papagaio. Tudo é relativo, até os tamanhos dos momentos. Este agora, por exemplo, é mais importante:

Quando Ary se lançou, lançou-se também um gato. Não se chama Mauro, nem tem uma cauda preta, não importa qual é o gato. Escolhera a varanda para a sua sesta, lançou-se quando reparou no papagaio e, um ou três latidos de coração mais tarde – agora –, pega na ave. Terminou-se a fuga.

É importante apontar para o facto de que tudo poderia ter dado certo, tanto para o dono quanto para o papagaio (para não falar do gato, do qual não sabemos se depois de saltar pousou novamente na varanda ou se se atirou para onde só ave devia); acrescenta-se também que algo assim – o pássaro libertado e o gato exterminador – realmente aconteceu, contaram-mo sobre um prato de lasanha que além do usual levava cogumelos.