– Vou desmaiar – ai, ai, não … pensa o Mauro e rola para a sombra. Tanto sol faz mal à cabecinha. É a pelagem dele, tão preta que absorve a luz e o calor. Aqui, no escuro é melhor. A sombra do edifício ao lado parte o telhado em duas metades. Agora ele está aqui, e lá está o … – Bolas! Para onde foi?
Além do seu posto anterior, no fim do telhado estivera um lagarto, quase sem se mexer … como o Mauro que o observara com calma, meio indeciso, meio pregiçoso. – Será que se assustou? quer saber o gato agora e pisca os olhos.
Ouve-se apenas o murmurar da fonte da praçinha, aí embaixo. Nem as folhas da laranjeira se atrevem a romper a paz da tarde. Mais para o alto, numa das varandas soalheiras que dão para o bairro e, talvez, o rio Tejo, uma mulher de t-shirt branca estende a roupa. Uma gata, preta como o Mauro, bajula as pernas dela. – Que fácil que és … pensa o Mauro, mas continua a observar a cena. A gata aproxima-se da borda da varanda, parece que viu algo. Não, deve ser apenas a curiosidade. Agora ela olha para a sua direcção. Consegue vê-lo, aqui na sombra?
Uma gaivota passa e, com as suas asas, corta ares e olhares. Quando Mauro de novo encontra a varanda, avista apenas uma t-shirt branca e uma cauda preta a desaparecerem. Fecha-se a porta detrás delas.
Ó cauda negra, olhar profundo,
como podeis, – Ai, meu amor! –,
causar num gato vagabundo
Ó nobre dama, tanta dor?*
(*Tradução aproximativa pelo autor)
O Mauro é todo gato apaixonado. Parece que sempre era, sempre será. É a gata de lá, da varanda. Não quer sair da mente dele que agora está a inventar grandes odes, para nós apenas sequências de sons, mas para eles, quem sabe … poesia miada.
A noite caíra há muito tempo. Os versos para o Mauro não costumam vir depressa, e quando finalmente chegam é preciso bater e pegar neles como numa borboleta d'asas pretas. Tristes são os versos, cheios de sufrimento. E escapam tão facilmente, pois a capacidade da mente do Mauro é limitada… Como era?… – Maravilha, na mesma!, pensa o gato e salta para o ramo mais alto da laranjeira. Zap, zap, zarap, já está na praça.
Queridas leitoras, queridos leitores, isto não quer ser kitsch. Realmente acreditaram no que contei? Aquilo da poesia etc.? Querem saber o que aconteceu depois do Mauro descer do seu telhado, acompanhá-lo na sua aventura nocturna? Comigo, não. A história termina aqui, que ainda tudo é possível. Pois, não tudo, visto que os gatos costumam ter um péssimo carácter e provavelmente não são capazes de amar. Pronto. Ainda bem que hoje ninguém morreu.