Quando o inverno chega a Lisboa e os sem-abrigos são de novo obrigados a repensar o seu estilo de vida, vem também o tempo das castanhas assadas. Nuvens de fumo saem das estufas dos seus vendedores, flutuam pela Baixa, misturam-se com o nevoeiro e criam um ar denso e misterioso.
Noutro tempo, já passado, quando tudo era ainda tranquilo e simples, um certo senhor Lopes vendia este petisco tão popular em frente da estação do Rossio. No vaivém das pessoas era um ponto de referência, uma cara conhecida na anonimidade da capital. O senhor Lopes não era um homem grande, em todos os sentidos. Saído duma infância humilde no Alentejo foi a Lisboa aos 15 anos para trabalhar na oficina dum tio. Foi lá que conheceu a sua futura esposa, uma rapariga duma pequena aldeia perto de Vila Real. Grossa de face e corpo, pelo menos tinha ainda família nesta terra, um facto que ajudou muito quando o senhor Lopes decidiu tornar-se vendedor das famosas castanhas trasmontantas durante os meses de inverno. O trabalho não exigia muita habilidade, mas amiúde tornava-se difícil; sobretudo por causa do vento, das chuvas e do frio que às vezes caem sobre Lisboa durante esta época do ano. Humilde e bom como era, o senhor Lopes aguentava estas circunstâncias e conseguia assim suster a sua família crescente.
Joana, a mais nova, era a bem-amada de todos. No inverno ela, sempre alegre, passava junto da estufa em frente da estação do Rossio para entregar o almoço ao pai. Era durante ou depois dum destes momentos, quando ela decidiu que queria ser diferente. Via os lábios ressecados, sentia as mãos frias e reparava na tosse estertorante do pai quando dormia de noite. Não, isto ou semelhante coisa não seria o destino dela. Ela estudaria, seria cabeleireira, enfermeira ou até professora de escola primária. Sempre quando Joana contava os seus planos à mãe, os seus olhos brilhavam, corava de agitação.
Mas, como a maioria dos pobres, Joana também era preguiçosa e burra; deve ser alguma coisa genêtica. Na escola ela chumbava quase todos os exames, quando finalmente desistiu não encontrava nenhum trabalho de longo prazo porque nunca aparecia pontualmente, também roubava. Quando o senhor Lopes morreu de cancro do pulmão, ela encarregou-se do negócio dele; é a Joana que ainda hoje nos vende as castanhas quando passamos a fazer compras para o Natal.
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