É a tarde do dia 24 de Dezembro. O sol já mergulhou no oceano frio, donde está a chegar agora um muro de neblina cerrada. As poucas pessoas nas ruas do Bairro Alto despacham-se, querem fugir da rua inóspita e ter com os seus, em casa, onde faz calor e cheira a especiaria, onde as crianças, embora agitadas, já ficaram caladas, algumas em espera das prendas, outras por medo das pancadas das mães, dezenas das quais encontram-se neste momento – e só aqui no Bairro! – encerradas nas casas de banho para fumar um cigarro e tragar um copinho de liquor. (São sobretudo mães que trabalham fora de casa. Nunca quiseram aceitar a posição natural da mulher e agora, sim, agora colhem as frutas do feminismo. Por causa do trabalho não podiam preparar a tempo uma festa de natal digna. Falta-lhes qualquer calor maternal, tanto as crianças – mal educadas – quanto os maridos têm medo delas).
A luz que sai das janelas perde-se na noite, na névoa, mal consegue penetrar a escuridão, o domínio da protagonista desta nossa pequena história. Lá, no fundo, nas trevas, ela corre e corre, dum lado da Rua da Atalaia para o outro. – "O que é que devo fazer?" – pensa e repensa Dona Elvira, ratazana, mãe enviuvada de 9 ratazaninhas, e morde a sua cauda gorda, como costuma fazer quando está nervosa. O ano não foi bom, o que restou mal é suficiente para ela e a sua família sobreviverem. Um jantar de natal, arranjar presentes? Nem pensar!
Dona Elvira ergue o nariz. Será que …? O ar cheira a rio, fumo, frio. Mas há mais alguma coisa, e vem de perto. Enquanto a ratazana está ainda a pensar na origem do aroma fino, as suas perninhas já se mexem, o corpo sabe, e agora o cérebro também dá forma ao que antes apenas sensação era: queijo.
Ratazanas gostam de queijo, como os ratos? Sim, senhor, gostam. E mesmo se não gostassem: Examinar estereótipos não faz feliz. Pergunta as mães feministas, lá nas suas casas de banho!
Então. – É um pedaço enorme, amarelo que transluz no fundo da rua. Daria para todos, para muitos dias. Mas claro, o queijo não está sozinho. Vem acompanhado por Don Jamón, um rattus norvegicus, uma ratazana-peregrina de nacionalidade espanhola. É ele a quem pertence o queijo, foi ele quem o trouxe, do seu armazém para cima, pelas escadas e travessas íngremes entre a Baixa e o Bairro.
Dona Elvira, ainda gorda apenas uma fêmea da espécie rattus rattus, mais pequena e menos selvagem do que o espanhol, sabe que vai ser difícil. Don Jamón, o grande empresário, é famoso por ser ávaro e cruel. Mas Elvira realmente quer este pedaço de queijo e está prestes a arriscar tudo. Don Jamón que já reparou nela antes da nossa história começar observa-a com os seus olhos pequenos. Não se mexe. Dona Elvira arreganha os dentes, põe-se em pé, em duas patinhas, e mostra as suas unhas agudas. O mundo no seu redor congelou. "Agora ou nunca" pensa ela e deixa-se cair. Mostrando a sua garganta, a barriga, as partes mais vulneráveis, ela rola ao pé de Don Jamón, chorando histericamente. "Ai, puer favor, eu soy una madre puebre, tengo trinta hijos con fombre… la guerra… los... los... terramotos... "
"Calma, mujer!" – Dona Elvira deixa de rolar no chão e pisca os olhos, tentando de fazer uma boa cara. "El queso era para Usted y los suyos, señora mia!" diz o Don, de repente todo cavalheiro. "Supe de su caso hace pocos días y pensé: Aqui hace falta un hombre honesto que pueda ayudar!"
"Para mim e los mijos?", pergunta tataranhando a ratazana, corando discretamente, "Gracias mil, senhor!"
E foi assim que Don Jamón salvou o natal de Dona Elvira, ratazana-mãe que com armas de mulher lutou por uma festa linda. Tão grande era a gratidão da ratazana que convidou o velho espanhol para festejar com ela e a sua família. Quando mais tarde estavam todos sentados, e o ratazaninho mais pequeno cantava uma doce melodia, uma grande lágrima pendurava do nariz de Don Jamón. Sorria e olhou para os seus novos amigos que ainda não sabiam que a partir do novo ano iam trabalhar nas suas minas de queijo no Alentejo. Confiantes como eram.
A luz que sai das janelas perde-se na noite, na névoa, mal consegue penetrar a escuridão, o domínio da protagonista desta nossa pequena história. Lá, no fundo, nas trevas, ela corre e corre, dum lado da Rua da Atalaia para o outro. – "O que é que devo fazer?" – pensa e repensa Dona Elvira, ratazana, mãe enviuvada de 9 ratazaninhas, e morde a sua cauda gorda, como costuma fazer quando está nervosa. O ano não foi bom, o que restou mal é suficiente para ela e a sua família sobreviverem. Um jantar de natal, arranjar presentes? Nem pensar!
Dona Elvira ergue o nariz. Será que …? O ar cheira a rio, fumo, frio. Mas há mais alguma coisa, e vem de perto. Enquanto a ratazana está ainda a pensar na origem do aroma fino, as suas perninhas já se mexem, o corpo sabe, e agora o cérebro também dá forma ao que antes apenas sensação era: queijo.
Ratazanas gostam de queijo, como os ratos? Sim, senhor, gostam. E mesmo se não gostassem: Examinar estereótipos não faz feliz. Pergunta as mães feministas, lá nas suas casas de banho!
Então. – É um pedaço enorme, amarelo que transluz no fundo da rua. Daria para todos, para muitos dias. Mas claro, o queijo não está sozinho. Vem acompanhado por Don Jamón, um rattus norvegicus, uma ratazana-peregrina de nacionalidade espanhola. É ele a quem pertence o queijo, foi ele quem o trouxe, do seu armazém para cima, pelas escadas e travessas íngremes entre a Baixa e o Bairro.
Dona Elvira, ainda gorda apenas uma fêmea da espécie rattus rattus, mais pequena e menos selvagem do que o espanhol, sabe que vai ser difícil. Don Jamón, o grande empresário, é famoso por ser ávaro e cruel. Mas Elvira realmente quer este pedaço de queijo e está prestes a arriscar tudo. Don Jamón que já reparou nela antes da nossa história começar observa-a com os seus olhos pequenos. Não se mexe. Dona Elvira arreganha os dentes, põe-se em pé, em duas patinhas, e mostra as suas unhas agudas. O mundo no seu redor congelou. "Agora ou nunca" pensa ela e deixa-se cair. Mostrando a sua garganta, a barriga, as partes mais vulneráveis, ela rola ao pé de Don Jamón, chorando histericamente. "Ai, puer favor, eu soy una madre puebre, tengo trinta hijos con fombre… la guerra… los... los... terramotos... "
"Calma, mujer!" – Dona Elvira deixa de rolar no chão e pisca os olhos, tentando de fazer uma boa cara. "El queso era para Usted y los suyos, señora mia!" diz o Don, de repente todo cavalheiro. "Supe de su caso hace pocos días y pensé: Aqui hace falta un hombre honesto que pueda ayudar!"
"Para mim e los mijos?", pergunta tataranhando a ratazana, corando discretamente, "Gracias mil, senhor!"
E foi assim que Don Jamón salvou o natal de Dona Elvira, ratazana-mãe que com armas de mulher lutou por uma festa linda. Tão grande era a gratidão da ratazana que convidou o velho espanhol para festejar com ela e a sua família. Quando mais tarde estavam todos sentados, e o ratazaninho mais pequeno cantava uma doce melodia, uma grande lágrima pendurava do nariz de Don Jamón. Sorria e olhou para os seus novos amigos que ainda não sabiam que a partir do novo ano iam trabalhar nas suas minas de queijo no Alentejo. Confiantes como eram.
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