Sonntag, 25. Dezember 2011

O Natal das Ratazanas (Bairro Alto)

É a tarde do dia 24 de Dezembro. O sol já mergulhou no oceano frio, donde está a chegar agora um muro de neblina cerrada. As poucas pessoas nas ruas do Bairro Alto despacham-se, querem fugir da rua inóspita e ter com os seus, em casa, onde faz calor e cheira a especiaria, onde as crianças, embora agitadas, já ficaram caladas, algumas em espera das prendas, outras por medo das pancadas das mães, dezenas das quais encontram-se neste momento – e só aqui no Bairro! – encerradas nas casas de banho para fumar um cigarro e tragar um copinho de liquor. (São sobretudo mães que trabalham fora de casa. Nunca quiseram aceitar a posição natural da mulher e agora, sim, agora colhem as frutas do feminismo. Por causa do trabalho não podiam preparar a tempo uma festa de natal digna. Falta-lhes qualquer calor maternal, tanto as crianças – mal educadas – quanto os maridos têm medo delas).
A luz que sai das janelas perde-se na noite, na névoa, mal consegue penetrar a escuridão, o domínio da protagonista desta nossa pequena história. Lá, no fundo, nas trevas, ela corre e corre, dum lado da Rua da Atalaia para o outro. – "O que é que devo fazer?" – pensa e repensa Dona Elvira, ratazana, mãe enviuvada de 9 ratazaninhas, e morde a sua cauda gorda, como costuma fazer quando está nervosa. O ano não foi bom, o que restou mal é suficiente para ela e a sua família sobreviverem. Um jantar de natal, arranjar presentes? Nem pensar!
Dona Elvira ergue o nariz. Será que …? O ar cheira a rio, fumo, frio. Mas há mais alguma coisa, e vem de perto. Enquanto a ratazana está ainda a pensar na origem do aroma fino, as suas perninhas já se mexem, o corpo sabe, e agora o cérebro também dá forma ao que antes apenas sensação era: queijo.
Ratazanas gostam de queijo, como os ratos? Sim, senhor, gostam. E mesmo se não gostassem: Examinar estereótipos não faz feliz. Pergunta as mães feministas, lá nas suas casas de banho!
Então. – É um pedaço enorme, amarelo que transluz no fundo da rua. Daria para todos, para muitos dias. Mas claro, o queijo não está sozinho. Vem acompanhado por Don Jamón, um rattus norvegicus, uma ratazana-peregrina de nacionalidade espanhola. É ele a quem pertence o queijo, foi ele quem o trouxe, do seu armazém para cima, pelas escadas e travessas íngremes entre a Baixa e o Bairro.
Dona Elvira, ainda gorda apenas uma fêmea da espécie rattus rattus, mais pequena e menos selvagem do que o espanhol, sabe que vai ser difícil. Don Jamón, o grande empresário, é famoso por ser ávaro e cruel. Mas Elvira realmente quer este pedaço de queijo e está prestes a arriscar tudo. Don Jamón que já reparou nela antes da nossa história começar observa-a com os seus olhos pequenos. Não se mexe. Dona Elvira arreganha os dentes, põe-se em pé, em duas patinhas, e mostra as suas unhas agudas. O mundo no seu redor congelou. "Agora ou nunca" pensa ela e deixa-se cair. Mostrando a sua garganta, a barriga, as partes mais vulneráveis, ela rola ao pé de Don Jamón, chorando histericamente. "Ai, puer favor, eu soy una madre puebre, tengo trinta hijos con fombre… la guerra… los... los... terramotos... "
"Calma, mujer!" – Dona Elvira deixa de rolar no chão e pisca os olhos, tentando de fazer uma boa cara. "El queso era para Usted y los suyos, señora mia!" diz o Don, de repente todo cavalheiro. "Supe de su caso hace pocos días y pensé: Aqui hace falta un hombre honesto que pueda ayudar!"
"Para mim e los mijos?", pergunta tataranhando a ratazana, corando discretamente, "Gracias mil, senhor!"

E foi assim que Don Jamón salvou o natal de Dona Elvira, ratazana-mãe que com armas de mulher lutou por uma festa linda. Tão grande era a gratidão da ratazana que convidou o velho espanhol para festejar com ela e a sua família. Quando mais tarde estavam todos sentados, e o ratazaninho mais pequeno cantava uma doce melodia, uma grande lágrima pendurava do nariz de Don Jamón. Sorria e olhou para os seus novos amigos que ainda não sabiam que a partir do novo ano iam trabalhar nas suas minas de queijo no Alentejo. Confiantes como eram.

Montag, 17. Januar 2011

Os sonhos de Joana (Rossio)


Quando o inverno chega a Lisboa e os sem-abrigos são de novo obrigados a repensar o seu estilo de vida, vem também o tempo das castanhas assadas. Nuvens de fumo saem das estufas dos seus vendedores, flutuam pela Baixa, misturam-se com o nevoeiro e criam um ar denso e misterioso.
Noutro tempo, já passado, quando tudo era ainda tranquilo e simples, um certo senhor Lopes vendia este petisco tão popular em frente da estação do Rossio. No vaivém das pessoas era um ponto de referência, uma cara conhecida na anonimidade da capital. O senhor Lopes não era um homem grande, em todos os sentidos. Saído duma infância humilde no Alentejo foi a Lisboa aos 15 anos para trabalhar na oficina dum tio. Foi lá que conheceu a sua futura esposa, uma rapariga duma pequena aldeia perto de Vila Real. Grossa de face e corpo, pelo menos tinha ainda família nesta terra, um facto que ajudou muito quando o senhor Lopes decidiu tornar-se vendedor das famosas castanhas trasmontantas durante os meses de inverno. O trabalho não exigia muita habilidade, mas amiúde tornava-se difícil; sobretudo por causa do vento, das chuvas e do frio que às vezes caem sobre Lisboa durante esta época do ano. Humilde e bom como era, o senhor Lopes aguentava estas circunstâncias e conseguia assim suster a sua família crescente.
Joana, a mais nova, era a bem-amada de todos. No inverno ela, sempre alegre, passava junto da estufa em frente da estação do Rossio para entregar o almoço ao pai. Era durante ou depois  dum destes momentos, quando ela decidiu que queria ser diferente. Via os lábios ressecados, sentia as mãos frias e reparava na tosse estertorante do pai quando dormia de noite. Não, isto ou semelhante coisa não seria o destino dela. Ela estudaria, seria cabeleireira, enfermeira ou até professora de escola primária. Sempre quando Joana contava os seus planos à mãe, os seus olhos brilhavam, corava de agitação.
Mas, como a maioria dos pobres, Joana também era preguiçosa e burra; deve ser alguma coisa genêtica. Na escola ela chumbava quase todos os exames, quando finalmente desistiu não encontrava nenhum trabalho de longo prazo porque nunca aparecia pontualmente, também roubava. Quando o senhor Lopes morreu de cancro do pulmão, ela encarregou-se do negócio dele; é a Joana que ainda hoje nos vende as castanhas quando passamos a fazer compras para o Natal.

Samstag, 15. Januar 2011

O Pato sem Piedade (Gulbenkian)


Era uma vez no Jardim do Gulbenkian um pato. Não sei se você conhece este jardim, mas é uma asneira, uma destas tentativas modernas de converter o que Deus deu a este mundo numa obra de arte, sacrilégio que algum dia com certeza vai encontrar o seu castigo. O nosso bom senso tem de dirigir-se contra isso, mas não contra os animalzinhos que, quem sabe por quê, decidiram morar nesta afronta ao Senhor. Contudo, nem todos estes bichos são bons, há alguns que foram comprometidos pelo ambiente.
Por exemplo a Dolly. A Dolly era um pato, nasceu numa primavera luminosa perto do regato que atravessa uma parte do areal. Pouco se sabe sobre a família dela, mas presumimos que faltava a forte figura do pai, entregando a nossa protagonista à gestão da mãe que, embora crente (por isso o nome Dolores) e devota, era fraca. Não sabia proteger a filha dos múltiples perigos que distinguem o jardim do Gulbenkian, impressões que iriam estragar o que tinha de bom e modesto na alma de Dolores: Gente jovem da universidade, homens e mulheres urbanos, artistas; todos a povoar o jardim, convertendo-o numa Babilônia, um lugar putrefacto de sussurros lascivos, beijos roubados a bocas do outro ou até do próprio sexo, prácticas desportivas estrangeiras de duvidoso objectivo, consumo de substâncias entorpecentes. Um nojo. E Dolores no centro, cada vez pior, cada vez mais impugnando a autoridade da mãe e as suas advertências benevolentes: Não olhes, Dolores, não perguntes! Mas Dolores, ou Dolly, como se chamava agora, não ouviu, não queria ouvir. De onde era que vinha esta gente? O quê tinha detrás dos arbustos e muros, os confins do mundo do jardim?
Um dia Dolly decidiu sair. Gingou pelos caminhos torcidos, rumo ao limite do parque, a serventia pela qual entrava e saía toda a gente. Passo a passo se aproximou. Novos sons entraram pelos ouvidos dela, alheios e fascinantes. Lá tinha ainda mais humanos, menos do verde familiar e íntimo da pátria. O chão também era outro, tinha uma cor diferente, um cinzento escuro, e outra temperatura. Emitia calor.
Dolly morreu neste mesmo dia de verão, atropelada por um carro. Foi a culpa dela e da sua sociedade, ambas não suficientemente fortes para se defenderem contra o mal que vem de fora.